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Saúde dos Cães - Características e incidência do Tumor Venéreo Transmissível (TVT) em Cães e Eficiência da Quimioterapia e outros tratamentos O Tumor Venéreo Transmissível (TVT) dos cães foi mencionado primeiramente em 1820 por Hüzzard e descrito em 1828 por
Delabere-Blaine. Essa doença continuou sendo motivo de estudos por muitos outros autores, mas foi Sticker em 1904 quem descreveu de forma detalhada esta neoplasia caracterizando-a como um linfossarcoma (motivo pelo qual também é denominado de linfossarcoma de Sticker). Sticker constatou que essa neoplasia é transmissível por células transplantáveis, com localização predominantemente venérea, afetando o pênis e a vagina de cães, mas também podendo ser encontrado em regiões extragenitais (CHITI e AMBER,1992). Esta afecção cosmopolita apresentou maior incidência em locais onde há cães soltos (FERRAZ, 1998). Um maior número de casos ocorreu na primavera e no verão, correspondendo a 57,9% dos casos relatados durante o ano (GANDOTRA et al., 1993a). O TVT encontra-se entre as principais neoplasias que acometem os cães. Além de constar em estatísticas de motivos mais freqüentes de procura ao atendimento veterinário juntamente com problemas de endo e ectoparasitismo, vacinações, traumas, castração, dermatites, pneumonias, infecções virais e cirurgia estética (AMBALI e MOHAMMED, 1994). Em fêmeas o TVT localiza-se mais freqüentemente na vagina (53 % dos casos), vulva (33%) e região extra-genital (14%); nos machos, ocorre quase que na totalidade, em cães não-orquiectomizados (LOAR, 1992) e localiza-se principalmente no prepúcio e pênis (56%) e em localização extra-genital (14%) (GONZALEZ et al., 1997). A cópula entre animais da espécie canina, devido ao contato prolongado, favorece o transplante das células tumorais (SANTOS, 1988). Entre as raças mais afetadas estão o Rotweiller (AMBER et al., 1990), Labrador (GANDOTRA et al., 1993a), Alasca Malamute, Pastor Alemão, Boxer, Doberman, Akita, Cocker Spaniel, Samoieda, Siberian Husky, Dálmata (MORALES e GONZALES, 1995). Fazem parte do grupo de risco os cães de guarda, assim como os que habitam áreas de alta densidade e com alta prevalência de animais abandonados, predominando nestes casos, cães sem raça definida (SRD), conforme FLORES et al. (1993). Devido a necessidade do detalhamento dos fatores que predispõem ao aparecimento do TVT, objetiva-se neste trabalho estabelecer parâmetros segundo predisposição racial, sexual e etária, além de verificar a localização mais freqüente da lesão, incidência de metástases e resposta ao tratamento, e as diversas modalidades de diagnóstico e de tratamento O Tumor Venéreo Transmissível também denominado de Linfossarcoma de Sticker (CHITI e AMBER, 1992) é uma neoplasia contagiosa. É de origem mesenquimatosa, e sua disseminação ocorre geralmente por contato sexual, porém o TVT também pode ser disseminado através do contato prolongado com superfícies contaminadas de outros animais. Essa neoplasia acomete principalmente cães de médio porte com idade de 1-15 anos (média de 7 anos), sendo os machos mais afetados, porém para GANDOTRA et al. (1993b), a maior incidência ocorre em fêmeas. Com relação ao diagnóstico, os proprietários mais atentos procuram o atendimento médico veterinário devido a presença de secreção sangüinolenta vaginal ou peniana, além de hematúria. Sendo assim, estas alterações correspondem aos sinais precoces do Tumor Venéreo Transmissível do Cão (WHITE, 1991). Com o desenvolvimento do TVT, observa-se tecido nodular, hemorrágico e friável, pouco demarcado, sendo que freqüentemente a lesão pode apresentar ulcerações. Essa neoplasia pode apresentar aspecto de couve-flor ou de placas. Pequenos fragmentos do tumor, com coloração acinzentada podem se destacar facilmente do tecido primário durante a manipulação (JOHNSON, 1994). De modo geral, as lesões neoplásicas surgem como pequenas áreas elevadas e hiperêmicas que com a progressão da doença, podem atingir 5 cm de diâmetro ou mais. Os animais podem apresentar prurido, mudança de comportamento, tornando-se muitas vezes agressivos ou apáticos, letárgicos e anoréticos. Em casos mais avançados, com progressão perineal do tumor, pode-se observar retenção urinária (BATAMUZI e KRISTENSEN, 1996). O histórico descrito pelo proprietário, como presença de secreção sanguinolenta vaginal ou peniana, e o aspecto macroscópico da lesão, placas friáveis com aspecto de couve- flor, são sugestivos de TVT, devendo-se diferenciar de neoplasias como mastocitoma, histiocitoma, linfoma e lesões granulomatosas não neoplásicas (FLORES et al., 1993). Como método diagnóstico pode-se usar a impressão sobre lâmina de microscopia ("imprint") e citologia de aspiração por agulha fina, sendo estes de simples e rápida execução além do baixo custo. O TVT também pode ser diagnosticado através de exame histopatológico, após biópsia incisional por vaginoscopia (WILLARD et al., 1989). O TVT possui aspecto microscópico semelhante às demais neoplasias de células redondas. Observam-se fileiras de células similares a macrófagos, células variando do formato redondo ao poliédrico (WHITE, 1991) medindo 15-30 mm de diâmetro (SANTOS, 1988), citoplasma azul-claro com a resença de vacúolos distintos, sendo pequena a relação núcleo/citoplasma (WHITTE, 1991). Nessas células, o núcleo é grande, basofílico e central (SINGH et al., 1996). De acordo com LOAR (1992) constatou-se presença de septos conjuntivos que isolam grupos de células, evidenciando disposição trabecular, além das figuras mitóticas que podem ser freqüentes. Em relação às metástases, estas são raras, podem ocorrer em animais nos quais o tumor persiste por um período maior do que dois meses. Os principais locais de metástases são os linfonodos regionais, escroto e a área perineal. Podem também ser encontradas, com menor freqüência em vísceras abdominais, pulmões, sistema nervoso central e mais raramente em fígado e baço (PAULA et al., 1997 ). ISHIKAWA et al. (1995) relataram casos de metástases em órgãos abdominais, linfonodos ilíacos internos e externos pós- histerectomia em cadela portadora de TVT. MILLER et al. (1990) descreveram o TVT localizado no prepúcio e pênis, com metástases no cérebro, meninges, pulmões e pálpebras. Finalmente, BATAMUZI e KRISTENSEN (1996) observaram metástases no trato urinário de cães provocando a obliteração do meato urinário externo pelo TVT, retenção urinária e bacterúria. O TVT, em cães sem lesão primária na área genital, foi diagnosticado no seio maxilar (PEREZ et al., 1994) e na cavidade nasal (GINEL et al., 1995). As neoplasias extragenitais também foram encontradas nos pulmões, linfonodos, musculatura esquelética e espaço intracranial (KROGER et al., 1991). Condutas terapêuticas vêm sendo preconizadas para o TVT, entre elas a criocirurgia (DASS e SAHAY, 1989; OLGIVIE, 1996), radioterapia (SANTOS, 1988 e WHITE, 1991), ressecção cirúrgica (PANCHBHAI et al., 1990) e uimioterapia antineoplásica (CAMACHO e LAUS, 1987; BHAT; AHMAD, 1988; HOQUE et al., 1993 e ANDRADE et al.,1999). A excisão cirúrgica pode resultar em um controle em longo prazo embora seja um procedimento cruento e que possui índice relativamente alto de recidivas. A eletrodiérese pode ser empregada para a exérese, a qual ocorre em menor tempo cirúrgico e com menor hemorragia. Como desvantagem da eletrossecção, há a possibilidade de atrasos na cicatrização e também a formação de tecido fibroso com deformação dos órgãos genitais (HOQUE et al., 1995). A quimioterapia citotóxica constitui-se no método mais eficiente. Sendo menos cruenta que o tratamento cirúrgico, apresenta menor número de recidivas e, quando estas ocorrem, em geral, são lesões localizadas e sensíveis aos antineoplásicos (CAMACHO e LAUS, 1987). A terapia com sulfato de vincristina na dose de 0,025mg/kg por via endovenosa, a cada 7 dias determinou regressão do tecido tumoral após a segunda administração do quimioterápico (OLGIVIE, 1996; MORRISON, 1998). Geralmente, após a quarta aplicação constata-se regressão completa do tecido neoplásico, devendo a terapia ser continuada com mais duas aplicações após o desaparecimento completo das lesões. Com estes resultados, conclui-se que o sulfato de vincristina constitui indicação eficaz para o tratamento de TVT, seja de ocorrência genital ou não (MORRISON, 1998). OLGIVIE (1996) constatou a cura de 90% de cães com TVT com três aplicações de sulfato de vincristina. De acordo com ANDRADE et al. (1999) a ação da vincristina resume-se no bloqueio da mitose e interrupção da metáfase. Os efeitos colaterais mais observados, decorrentes da terapia com sulfato de vincristina, são inapetência, alopécia pouco significativa, vômito, diarréia (HOQUE et al., 1995). WHITE (1991) relatou toxicidade hematológica, neurológica e dermatológica em cães tratados com sulfato de vincristina bem como o discreto efeito colateral hematológico do sulfato de vincristina, constatando moderada mielossupressão quando comparado a outros citostáticos. Em relação à neurotoxicidade, WHITE (1991) e MacEWEN (1996) observaram neuropatia periférica em alguns cães submetidos à quimioterapia com este fármaco associado à ciclofosfamida e prednisona. Com respeito à dermatotoxicidade WHITE (1991) documentou discreta alopécia em cães tratados com sulfato de vincristina. O autor considerou mais graves as lesões como a necrose no tecido perivascular quando ocorre extravasamento do citostático. Ainda como alternativas para quimioterapia antineoplásica, podem ser empregados fármacos como clofibrato (BHAT e AHMAD, 1988), ciclosfosfamida (HOQUE et al., 1993), doxorrubicina, sulfato de vinblastina e metrotexato (SINGH et al., 1996). Muitos desses fármacos podem ser utilizados quando se pretende reduzir o tamanho do tumor para posteriormente submetê-lo à exérese cirúrgica. Segundo MacCEWEN (1996), a doxorrubicina pode ser administrada para tratar casos de TVT resistentes à vincristina, sendo que a dose empregada nesse caso é de 30mg/m 2/IV, cada 21 dias. Geralmente, dois tratamentos são suficientes para induzir remissão completa da neoplasia. Já é de conhecimento que os fármacos antineoplásicos interferem nos processos de síntese de DNA, RNA e/ou proteínas, provocando a morte celular imediata ou na primeira tentativa de divisão. Sabe-se que as células tumorais são particularmente suscetíveis a esse efeito, porém outros tecidos, especialmente os de rápida divisão celular também o são. Além disso, muitos desses fármacos são tóxicos, carcinogênicos e mutagênicos. Sendo assim, tais informações levam a questionar sobre a possibilidade de riscos pessoais envolvidos na manipulação e na administração de quimioterápicos citostáticos (MORRISON, 1998; ANDRADE et al., 1999). Assim, a terapêutica com fármacos antineoplásicos deve ser executada com medidas rotineiras de segurança, já que o contato acidental com a pele e as mucosas pode causar complicações graves como irritações, ulcerações, mielossupressão, câncer, etc. Sendo assim, deve-se evitar qualquer contato com o citostástico fazendo uso de material de segurança como luvas de látex cirúrgicas, avental de algodão com manga longa, avental de plástico sem mangas, óculos de proteção com lentes de policarbonato e máscara cirúrgica com carvão ativado (MORRISON, 1998; ANDRADE et al., 1999).
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